sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Dia estranho, mente inquieta...

Essa semana estou me sentindo bem melhor do que na semana passada, fisicamente falando.
Quer dizer, emocionalmente também, porque até consegui escrever um texto, e depois outro logo em sequência - a coisa está andando, mesmo devagar, mas está. O plano era ter vindo postar ontem a continuação dos aprendizados, porque são coisas que eu realmente não quero deixar passar em branco, mas os planos sempre mudam e acabei não vindo.

E hoje o dia foi particularmente estranho.
Sinto uma saudade absurda do meu bebê, da minha barriga, da gestação. Procuro, com todas as forças, não pensar em que semana eu estaria agora, ou qualquer coisa assim, mas é claro que não dá sempre certo e eu penso um pouquinho, sim. Não me martirizando ou lamentando eternamente, é mais uma... saudade mesmo, entendem? Não tem outra palavra que se enquadre melhor aqui. Antes de engravidar, eu sempre dizia que sentia saudade do que ainda não tinha chegado. Agora, então, é uma saudade real. Doi muito.
E muitas vezes é inevitável pensar, porque tinham coisas que já eram muito automáticas, já faziam parte do meu dia-a-dia: na hora de comer (eu sempre dizia "estamos com fome!!"), na hora do banho, em cada coisinha eu incluía o baby também, era sempre "nós" - e, da noite pro dia, ter que medir as palavras não é fácil. O Cleber também sente falta, ele sempre passava a mão na minha barriga quando estávamos deitados, conversava, dava "tchau" e - a parte que sinto uma baita falta - sempre dizia: "Amo vocês!". Agora, todo dia quando ele diz que me ama, antes de ir trabalhar, eu fico esperando o plural, e ele nunca chega (porque claro que ele se controla, para não me deixar triste). São dessas pequenas coisas que sinto falta. O cotidiano, o que já me era natural.

Apesar de, neste momento, estar numa vibe mais pra baixo, me mantive bem durante boa parte da semana. Mas confesso que muitas vezes eu sinto um vazio, um "e agora?", quando penso nos próximos dias e meses. Porque não é simplesmente "ah, tenta de novo". E o que eu vou fazer até lá? Essa semana ocupei bastante a minha mente, pensei até em retomar umas ideias doidas antigas, quem sabe um projeto novo, não sei. Tenho pensado muito em trabalhar ou fazer um curso, pelo menos temporariamente. Porque com a mente ocupada eu não dou margem à tristeza excessiva e aí faz de conta que o tempo tá passando mais rápido, né? Mas hoje quebrei a cabeça por horas e horas e não soube o que fazer, o que decidir, me senti péssima... (até que, agora há pouco, conversei com a Nana linda e surgiu umas ideias, né querida? Obrigado, de verdade!). Não sei ainda o que vai rolar ao certo, mas sei que vai ter que rolar!

Minha mente está inquieta, meu coração aos "trancos e barrancos" (como diria meu pessoal lá de Minas), e estamos todos - eu, minha mente, meu coração - tentando achar uma solução que agrade todos e que seja para breve.

Espero que o Sr. Tempo colabore.
Prometo vir contar quando descobrir alguma coisa.


quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Das coisas que aprendi

Ontem eu escrevi um textono meu outro blog, sobre uma "teoria de vida" que eu tenho: tudo em nossas vidas acontece por uma razão. Eu acredito nisso e me apeguei ainda mais a essa ideia agora, nessa tempestade que passei.
Claro que eu não posso afirmar com categoria "esse bebê veio pra isso, isso e aquilo outro". Assim eu estaria, no mínimo, sendo prepotente. Além de estar diminuindo a grande missão daquela alma. Algumas coisas, com certeza, estão além do que supõe a minha vã filosofia - e eu também reverencio e admiro esse mistério divino. Mas eu acredito, também, que muita coisa que aprendi e vivi nesse tempinho se deu por sua presença aqui em mim. Disso eu posso falar. Porque eu percebo que algumas peças mudaram de lugar no meu tabuleiro, que algumas dúvidas e neuras que eu tinha, hoje ou não existem mais, ou estão em processo ativo de ser resolvido. E eu não posso simplesmente guardar isso, eu preciso registrar, porque além de ser ferramenta da memória, a escrita é minha aliada em muitas outras coisas. E eu vou fazer isso já, antes que eu me esqueça de alguns pormenores. Algumas coisas eu percebi durante a gestação e, por incrível que pareça, outras constatações vieram com a perda. Pois é, esta sou eu querendo encontrar algo positivo em meio a tanta dor.

Das coisas que me aconteceram durante a gestação:
Hoje eu sou uma pessoa muito mais calma do que antes. Já até citei isso aqui no blog quando percebi. E sim, isso me surpreende, porque antes de engravidar eu era uma pessoa muito (muito!!) ansiosa, afobada, que fazia coisas por impulso e que sofria por antecipação. [Pra falar a verdade, isso era mil vezes mais frequente em mim antes de conhecer o Cleber - todo o processo de "sossega, Marina" (nome que eu acabei de inventar, rs) começou quando o conheci, não posso deixar de dar os créditos também a ele - mas desde que me descobri grávida passei a me sentir ainda mais calma pra lidar com algumas coisas do que antes]. Sendo sincera, não sei porque isso aconteceu, talvez tenha sido um amadurecimento mesmo, ou a minha forma de encarar certas coisas tenha mudado. Hoje eu consigo focar mais no que me faz bem e isso deve ajudar também. Só sei que até o meu irmão, que mora há mais 2.000 km de distância, disse que percebeu que eu mudei, que até o meu jeito de falar mudou - e ele disse isso alguns dias depois da perda- e isso só me mostra que o negócio pegou mesmo em mim, já que consegui permanecer assim, dentro do possível, até para encarar tudo que aconteceu de um jeito diferente.

Eu falei naquela blogagem coletiva que passei a confiar de verdade no meu corpo e em seus sinais, isso também foi algo que mudou. Aliás, acabei de ler o post de novo e me lembrei que eu tinha um medo real de algo dar errado. Naquela época, meus medos giravam em torno de uma gravidez anembrionária, ou de perder o bebê no comecinho - nunca nem pensei em algo dar errado com 17 semanas, mas enfim, aconteceu e agora estou aqui tentando colar os caquinhos. Mas o que quero dizer, além de tudo que citei lá no outro texto, é que ainda confio no meu corpo, sim. Eu poderia pensar que tem algo errado em mim (ou no marido, sei lá), mas esta nunca foi uma opção. Eu não sei o momento exato em que a vida do bebê se encerrou, só sei que eu tinha uma pulga atrás da orelha e isso me diz que sim, o meu feeling ainda funciona - e espero que continue assim por muito tempo - e o meu corpo trabalhou perfeitamente bem desde sempre, não há como negar. Também não me arrependo do fato de ter optado por fazer menos ultrassons (eu poderia ter feito um na semana anterior para tentar descobrir o sexo, mas não fiz), porque o fato de eu descobrir algo antes não ia mudar o desfecho da história - tudo acontece quando tem que acontecer, é o mantra que ecoo sempre, para me lembrar disso.

Sobre o tempo, eu poderia deixar para falar no post que vou fazer sobre as coisas que aprendi com a perda, mas aconteceu também durante, então vou citar nos dois. O que aconteceu foi que o meu ritmo diminuiu muito no tempo em que estive grávida. Eu fiquei mais introspectiva, não fui em shows, tive zero vontade de me exercitar. E eu respeitei isso, não tentei ir contra, não. Simplesmente porque acho que as coisas têm que ser vividas em sua totalidade (na medida do possível, claro). Foi um tempo fundamental para outra coisa que veio junto: a minha conexão comigo mesma (e, obviamente, com o bebê). Peguei mais leve fisicamente, mas emocional e psicologicamente foi intenso. Foi um tempo meu, em que me permiti viajar um pouco e que também veio à tona muitas respostas (com a ajuda do meu marido lindo, tenho que dizer, rs).

Não sei, tenho a impressão de que essas são só algumas coisas. É como se eu tivesse esquecido algo, ou talvez elas estejam relacionadas ao que citei aqui. Pode ser que algumas eu só descubra com o passar do tempo, quem sabe. Só sei que tenho uma sensação forte de que a minha fonte de luz me fez muito bem e que, entre outras coisas, ela veio para me ensinar mais sobre mim, sobre nós, sobre a vida.


Imagem: We Heart It

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Envergo, mas não quebro

Então a pessoa vem aqui, chora, reclama das inconstâncias da vida... e some. Aí é ruim, né gente?!
Daí que eu quero escrever montes e montes de coisas, mas eu sempre perco o fio da meada diante de tanto assunto. Ou seja, vamos começar aos poucos.

- Ainda estou de repouso. As coisas foram muito bem semana passada, no fim de semana comecei a acreditar que ia chegar ao fim, mas hoje tive uma (ingrata) surpresa e o sangramento (meio forte) voltou de novo. Pode durar até 3 semanas, então tá dentro do esperado. Mas como sou sensível pra essas coisas, preciso colocar o pé no freio, porque fico mais molinha mesmo.

-  Emocionalmente, estou indo bem. Senti aquela tristeza na quinta, já na sexta estava praticamente uma bipolar: ora queria uma gravidez pra ontem, já!, outra hora ainda chorava e nem queria pensar no assunto.
Agora estou firme, eu acho. Digamos que está tudo indo pros seus devidos lugares, mas ainda no esquema "um dia de cada vez" - meu lema de vida, rs.

- Por falar em fim de semana, sábado foi aniversário da minha mãe (beijo, mãe!) e fomos ao shopping rapidinho, já que eu me sentia bem e estava há uma semana de molho. Andamos, compramos, tomamos um café básico pra esquentar, e depois voltamos, porque me cansei rápido. Mas foi ótimo!

 um capuccino e uns docinhos pra aquecer 

Sábado. Ele nunca olha pra foto. E eu já consigo sorrir!
(alguma olheira ainda e disfarçando qualquer vestígio de palidez com filtros do instagram - mas estamos assim)

- Decidi que vou criar calos nos dedos, se preciso for, mas vou botar tudo isso que tá aqui dentro na tela (ou no papel). Tenho vontade de fazer isso já há algum tempo e nunca soube muito bem por onde começar (ainda não sei, mas né? isso é só um detalhe), mas, diante do que aconteceu e dos (novos) pensamentos que isso me trouxe, preciso mesmo fazer alguma coisa.

- Ou seja. Provavelmente, ainda surgirão alguns textos "reflexivos - oi, autoconhecimento" sobre o que passou. Não tenho um plano traçado - e os rascunhos estão quase todos na minha cabeça ainda - mas à medida que pintar inspiração para outros assuntos, vou postando também.

- Ainda não sei quando vamos - marido e eu  - voltar às tentativas. Agosto já está quase chegando ao fim (céus! já?) e, pelo menos o pensamento de hoje, é "descansar" em setembro. Ou seja, antes de outubro não rola. Tudo vai acontecer no tempo certo e eu vou atualizando vocês, na medida do possível.

- Já consigo ouvir música normalmente, amém! Não sei se todas, porque também não vou ficar escolhendo justo as que mais mexem comigo, né? Mas se já ouço os mesmos artistas sem chorar, já é um avanço e tanto! Tanto que o nome do post é uma música do Lenine. Um pedacinho dela aqui:

" (...)
Eu sofro igual todo mundo
Eu apenas não me afundo
Em sofrimento infindo

Eu posso até ir ao fundo
De um poço de dor profundo
Mais volto depois sorrindo

Em tempos de tempestades
Diversas adversidades
Eu me equilibrio e requebro

É que eu sou tal qual a vara
Bamba de bambú-taquara
Eu envergo mas não quebro
(...)"


- Ontem estava aqui de bobeira e resolvi dar uma mexida no layout do blog (já que moedas pra contratar um profissional eu não tenho). Achei que esse céu tem tudo a ver com o nome do blog, hahaha #aloca. E desvinculei total do Google + (que eu nem tinha escolhido, veio automático quando criei), agora só perfil Blogguer mesmo e tá de bom tamanho.

E chega, né? Escrevi demais!
E vocês, como estão?
Beijo pra todo mundo e que tenhamos todos uma boa semana :)

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

7 dias, um de cada vez...

Uma semana de dor, de ausência, de saudade.
Se ontem eu estava achando que estava lidando com isso até que bem (na medida do possível), hoje não tenho certeza de nada.
Uma tristeza...

Choro pensando nos sinais que não percebi - dor de cabeça, insônia: isso já indicava, no meu contexto, no meu ritmo de vida, que algo não ia bem.
No sinal que percebi, mas não dei bola - a mesma sensação física que senti no corpo, perto do estômago/coração quando ela estava chegando, senti nas costas, no mesmo lugar, quando estava indo - não posso dizer que não fui avisada, apesar de não ter entendido nada quando senti isso certa noite.
No que eu nunca vou entender.

Pelo ultrassom que fiz, já fazia três semanas que algo estava errado, que o desenvolvimento vinha caindo, parando. Mas eu ainda a sentia aqui, ainda conversava com ela, fazia massagem...
Hoje eu olho minha barriga, reta, e percebo que ela estava grandinha, sim, quando eu achava que não estava (e percebo que eu também tinha alguma razão em implicar com ela, que se recusava a ficar mais durinha). Meus seios também já mudaram. Mas o meu amor, não.
A pele pálida e as olheiras ainda estão aqui, apesar de mais discretas do que há uma semana.

Uma semana. Parece que foi ontem. Parece que foi há meses.
Coisa esquisita esse negócio de tempo, né?

Ao mesmo tempo em que venho tentando (re)significar o que aconteceu e olhar tudo por um prisma diferente, com um significado maior - e preciso dizer que é nisso que acredito e me apego a cada instante, como um bote salva-vidas - também sou tomada, às vezes, por pensamentos tristes, de vazio. Como hoje...

... que faz um dia frio em São Paulo, e eu não me importo com isso, até gosto. O que me faz pensar que era mesmo ela que não era muito fã dos dias cinzas. E eu aproveito a garoa e a chuva pra chorar, como um disfarce.

Faz dias que não consigo ouvir música. Era um momento nosso, ainda não consigo encarar certas melodias. Mas nesse contexto de hoje, me peguei pensando numa música, que eu não vou dar play, pra não inundar tudo de vez, mas vou colocar aqui.


"A chuva é a vontade do céu de tocar o mar
E a gente chove assim também quando perde alguém
Mas quando começa a chorar, começa a desentristecer
Assim se purifica o ar depois de chover"
A Chuva, Marcelo Jeneci

A música só tem uma estrofe e não está registrada em estúdio.
Ele (o Jeneci) diz que é uma letra inacabada, mas que gostou dela assim, e a canta em alguns shows.
Como um mantra. É sempre emocionante ouvir (e nesse show do link eu estava presente).

Então fico por aqui, repetindo meu mantra.
Porque como diz outra música dele: "quando chover, deixar molhar, pra receber o sol quando voltar".
E eu espero que ele volte logo; e que a felicidade volte a ser "só questão de ser".

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Carta à minha fonte de luz

Meu amado bebê,
você não mora mais aqui na minha barriga, mas queria te dizer umas coisas, mais uma vez.
Muito obrigado por ter me escolhido como sua casinha neste tempo que precisava aqui na Terra. Mesmo que tenha sido por pouco tempo, você me ensinou coisas das quais eu nunca vou me esquecer, jamais. Poder ter amado você nos fez um bem enorme, saiba disso. Seu pai e eu dedicamos um espaço enorme em nosso coração pra você morar, desde que soubemos da sua presença. E é um espaço só seu, sempre será.
Quero acreditar que foi uma ajuda mútua.
Você nos ajudou. Nós te ajudamos.
Se você precisava de mais amor, se precisava sentir todo o nosso bem querer e bons pensamentos, fico feliz em saber que cumprimos isso. 
O bem que você nos trouxe quase não dá para mensurar, de tão grande. De tão intenso.
Hoje eu sou uma pessoa muito melhor do que antes, e preciso te dar os créditos por isso. Estou até organizando um texto inteiro dedicado à tudo que aprendi com você, porque é muita coisa mesmo.
Me desculpe por não ter tido forças para ver o seu corpo físico. E muito obrigado por ter escolhido sair de mim de forma tão suave e até discreta - do mesmo jeito que chegou, não foi? Talvez fosse para ser assim mesmo, talvez fosse um acordo nosso: eu esperaria o seu tempo e você sairia de cena sem grandes despedidas. Um ajuda mútua, já disse que acredito nisso?
Tem uma parte minha que queria muito que você estivesse aqui ainda. Sinto muita saudade de você, muita. Mas preciso me lembrar constantemente que não posso ser egoísta, você cumpriu a sua missão e teve que partir - você era fonte de luz, virou a nossa bolota, e agora é fonte de luz de novo - uma luz forte, que nunca vai se apagar. O Papai do Céu nunca erra nas contas, meu bem, Ele é mesmo bom nisso, é o Senhor do Tempo (tem até uma música sobre isso) - então, se você voltou a ser luz é porque, no relógio da Vida, os ponteiros assim determinaram. 
E eu tenho me apegado tanto à ideia de que você só veio mesmo para nos ensinar, que nem ao menos soubemos se você seria ele ou ela.  Não te chamamos por um nome, nem criamos expectativas sobre a sua vidinha aqui fora. Das pessoas da família que tentavam adivinhar isso (e eles sempre acertam essas coisas), ninguém nunca conseguia dizer, e você se foi antes que soubéssemos. Hoje eu entendo o porquê de você não ter deixado que soubessem - você não era o futuro, você foi o nosso presente. Tempo presente. Presente para toda a vida.

Finalizo essa carta com a certeza que você terá acesso à ela, porque cada palavra veio exatamente de onde você está em mim agora. 
Sinto que você cuida dos nossos corações - meu e de seu pai - e começo a vislumbrar, enfim, que era mesmo aí que você tinha de estar.


Todo o nosso amor,
mamãe e papai.


A primeira vez que eu postei essa foto, disse que era você disfarçada de luz do sol.
Hoje não é mais disfarce.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

O relato que eu não queria fazer, nunca - a noite

Segunda - e longa - parte do post sobre a minha perda (a primeira aqui), e que também foi revisado entre lágrimas. Mais uma vez, é favor perdoar erros ou repetições.
Este é um relato sincero e com detalhes de como aconteceu, comigo, a parte fisiológica do processo.
Sinta-se à vontade para não ler, por qualquer que seja o seu motivo. 

À noite - acredito que já era umas 22:00 (ou foi antes?) - minha mãe fez um chá de canela pra mim. Eu odeio chá, não tomo de jeito nenhum. Mas naquela circunstância eu encarei como remédio, como uma forma de fazer com que o processo fosse o mais natural possível. Ela fez meio forte, só consegui tomar uns dois ou três goles pequenos, deixei o resto da caneca de lado. As cólicas iam e vinham, sem muita frequência, e eram perfeitamente suportáveis, como se eu tivesse pra ficar menstruada mesmo.
Comecei a pensar no meu último encontro com a doula, em que conversamos sobre as fases do parto. "Pródromos: continue sua vida normalmente. Fase latente: a coisa vai começar a engrenar. Fase de transição: um dor atrás da outra, quando já está no fim da dilatação, é quando mais doi. Expulsivo: não doi". Juro que me lembrei da Isa me falando isso. A Betina tinha dito que eu ia entrar em trabalho de parto - e foi assim que eu resolvi encarar as dores. Emocionalmente, não gosto de pensar (nem de falar) que foi um parto - pela idade gestacional, porque não foi cheio de ansiedade e alegria para ver o meu bebê, porque não tem bebê aqui agora. Mas fisiologicamente foi um parto - guardadas as devidas proporções, obviamente. E eu não usei em momento algum a palavra aborto - aqui nesse texto é a primeira vez - e nem pretendo usar, porque dá um peso muito maior pro que já é bem difícil.
Eu queria ir dormir, mas o Cleber estava vendo um filme (tentando preencher a mente) e eu não queria sair do lado dele, então fiquei no sofá também. Me aninhei no peito dele e cochilei.

09 de agosto de 2013.
Depois que o filme acabou fomos pra cama, já era pouco mais de meia noite, e as dores estavam começando a ficar mais fortes, bem incômodas mesmo, mas passavam. Eu estava com medo de sair o feto enquanto eu estava deitada e ter que olhar - tinha muito medo mesmo. Perguntei isso pra Betina, e ela disse que provavelmente sairia dentro da bolsa, então eu não veria nada, mas tinha uma pequena chance de estourar e eu ter que ver. Entendam, eu não estava desprezando o meu bebê, de forma alguma, mas na minha cabeça realmente não era mais a Bolota ali, ela tinha ido embora dali pra sempre. E eu não me sentia preparada o suficiente pra lidar com mais aquilo. Fora que eu tinha medo da quantidade de sangue, por causa da minha sensibilidade. Conversei com Deus, entreguei meu medo. Rezei para ter forças para aguentar o que viesse, do jeito que viesse; peguei no sono.

Acordei com uma dor forte e fui ao banheiro, achando que tinha começado. Nada. Mas meu intestino começou a funcionar. Voltei pra cama, para tentar dormir - era 1:30 da manhã. Cochilei, me revirei na cama quando a dor vinha forte. Fui ao banheiro de novo. 2:30 da manhã, vi no celular. E uma hora depois, a mesma coisa, banheiro. Voltei pra cama, devia ser algo depois das 3:30 e antes de 4:00. Não tinha sangue ainda, só um tipo de corrimento marrom, fraco, sei lá. Eu queria ficar o máximo na cama, perto do Cleber, dormir, esquecer. Mas a dor estava aumentando e eu começava a me perguntar se aquela não iria embora, parecia não ter fim. Levantei. Andei pela casa. De tanto ler relato de parto, cismei que queria tomar banho, porque a água quente ajuda a aliviar a dor. Era muita dor - na parte de baixo da barriga e um pouco na lombar. Fui no quarto da minha mãe, mas ela dormia e eu não quis insistir em chamá-la (acordar o Cleber nem passou pela minha cabeça, eu queria que ele estivesse descansado de manhã - vai saber o que ia nos esperar). Voltei pra sala, fiquei de cócoras, tentei mexer os quadris, ficar apoiada na mesa. Nada fazia a merda da dor passar, estava demais. Comecei a sentir calor. Acordei minha mãe, não dava mais pra ficar sozinha. Eu disse que queria tomar banho, e quando ela foi responder, virei as costas e entrei no banheiro, queria vomitar. Sentei no vaso, tirei a roupa inteira (nossa, que calor que eu sentia), senti uma dor profunda... e vomitei. Foi muito intenso. O corpo realmente sabe o que fazer, hoje eu vejo. Minha mãe entrou no banheiro pra ficar comigo. Enquanto estava com a cabeça pra frente - por causa do vômito - olhei entre minhas pernas e vi que tava descendo uma coisa que eu suponho que fosse o tampão, mas não tenho certeza. Era uma coisa como uma "liga", ou uma "gosma" (desculpem as palavras, não sei como dizer isso usando termos mais leves); só sei que desceu e ficou lá, meio parado, como se tivesse empacado. Como que eu ia me limpar e tomar banho daquele jeito? "Mãe, tá descendo uma coisa". Ela disse pra eu ficar lá sentada, então. Minha barriga já era outra, bem diferente do que um ou dois dias atrás. A gente tentava conversar alguma coisa, qualquer coisa, mas não dava. Ela ficou lá em pé, do meu lado, e eu sentada, sem a mínima coragem de levantar. A dor era perfurante. Me lembro de dizer, em algum momento: "parabéns pra mim", ainda esboçamos um sorriso. Ela disse parabéns e eu disse que era um renascimento - precisava acreditar nisso. Nessa conversa - que eu ainda disse que "nem havia nascido ainda", porque era umas 04:30 da manhã, e eu nasci 06:20 - a dor passou. Ficou uma espécie de peso, mas a dor cessou. Aí, quando eu não esperava nada, senti uma coisa assim: ploft!, literalmente. De dentro de mim, pra fora. Senti "uma coisa" (que eu ainda não sabia o que podia ser) passando pelo canal. Foi rápido e não doeu. Fiquei surpresa com aquilo e avisei minha mãe. Olhei rapidinho e vi, de novo, aquela gosminha, mas dessa vez com um pouco de sangue. Eu ainda queria tomar banho, achava que tava só começando, não tinha muita noção das coisas - mas sim, já era o "expulsivo", e pelo tamanho que senti passando, era mesmo o feto indo embora, junto com a bolsa, mas não pensei mesmo nisso na hora. Pedi água e minha mãe foi buscar. Não sabia mais se sentia calor ou frio. Pedi uma bolachinha de água e sal, porque comecei a perceber que minha pressão dava sinais que estava caindo. Comi um pedacinho só. Eu precisava deitar, não estava nos planos desmaiar no banheiro, ainda mais naquelas circunstâncias. Minha mãe trouxe uma blusa de um pijama dela e eu disse que precisava mesmo sair dali. Decidi que não queria nem me limpar, pra não ter contato com nada, e nem olhar pro vaso quando levantasse (minha mãe disse que olhou, mas como a água estava escura, não conseguiu ver o tamanho, nem nada). Coloquei a calcinha (com absorvente) e fomos pra sala. Foi o tempo exato de eu não desmaiar (depois ela contou que eu fiquei bem branca). Deitei e coloquei as pernas pra cima, pra circulação voltar. Ela trouxe uma cobertinha pra me embrulhar - estava com frio e a dor tava começando a voltar - e eu coloquei uma parte dela embaixo de mim, pra proteger a capa do sofá de algum acidente. Fui me esquentando e relaxando. Depois de um tempinho, foi me dando sono - talvez pelo cansaço, ou por não ter dormido nada, não sei. Já devia ser algo em torno das 05 e pouco da manhã. Dormi no sofá. Minha mãe sentou e coloquei as pernas no colo dela, e ela também dormiu.

Acordei quase 07:00, eu acho. Fiquei deitada mais um tempo, meio dormindo, meio acordada. Mas me deu fome. E vontade de fazer xixi. Meu pai já tinha acordado e veio me dar um abraço pelo meu aniversário. Levantei devagarzinho e fui ao banheiro. Achei que estivesse bem suja de sangue, mas não estava. Tinha um sangramento, claro, mas algo dentro do normal, digamos assim. O Cleber levantou, super preocupado comigo. Me deu um longo abraço - pelo aniversário e por todo o resto - depois fomos tomar café da manhã. Disso eu lembro, pois eu queria especificamente pão "na chapa" e café com leite, e assim foi.

Passei o dia todo em casa. O sangramento não aumentou demais, mas ficou constante. Eu estava muito triste, mas não chorei o tempo todo. Fui andar lá embaixo um pouco com o Cleber, mas voltamos logo porque não estava tão bem assim. Não quis falar com ninguém no telefone, porque estava muito sensível mesmo, então todas as ligações que recebi pelo meu dia - de pessoas que sabiam, ou não, do ocorrido - foram atendidas pela minha mãe. À tarde, enquanto ela falava com a minha vó (mãe dela), que sabe um monte de receitas de chás, pra tudo (depois eu conto disso), chegou a encomenda que eu tinha feito de um gorrinho lindo de coruja, pra ajudar no parto do Raul. Ainda veio uns tsurus lindos, e uma cartinha escrita à mão (obrigado, Débora!). Minha mãe começou a chorar quando viu, teve que desligar o telefone. A abracei e disse que não precisava ficar assim - mas ela ainda não havia chorado nada, então deixei. Depois eu também chorei.
A Isa ia vir aqui em casa, mas teve que atender um parto de última hora. Me ligou perguntando se por mim tudo bem ela ir, se eu estava bem (fisicamente), e como eu disse que sim, ela foi. E ficou de vir no sábado.
À noite, minha tia, minha prima, com o marido (irmão do Cleber) e o filhinho deles, que fazia dois anos naquele dia, junto comigo, vieram pra cá. Foi difícil. Não pela presença deles, ou por ver um bebê-quase-criança. Mas era uma alegria que eu não sentia. Chorei no quarto, com o Cleber, pra que ninguém visse.

No sábado, dia 10, a Isa veio aqui me ver e foi ótimo. Conversamos, rimos um pouco. Ela almoçou aqui, ouviu alguns causos da família. Me fez super bem mesmo. Eu ainda estava com medo da coisa desandar, fisiologicamente. Não tinha mais dor, só umas cólicas leves de vez em quando, e o sangramento ora ficava pouco, ora aumentava. Eu tinha medo de ir no hospital e eles me internarem. Resolvi, então, ir na Casa Angela, assim eu aproveitava pra contar o ocorrido. A Isa teve que ir embora, e fomos todos - meus pais, Cleber e eu - na Casa. A Fran, mesma EO da última consulta, estava lá. Mediram minha pressão, ok. Temperatura, ok. Ela ficou muito triste por nós. Disse que eu podia sentir a minha dor, sim, e que na hora certa viria outro bebê, mas que um não iria substituir o outro, e outras coisas mais. Daí foi examinar meu sangramento, e disse que estava dentro do esperado mesmo. Disse até que podia vir mais, mas que meu corpo estava sendo perfeito. Me deu uma guia pra fazer um ultra quando o sangramento acabar.

E foi isso.
Muito triste. Muito intenso. Muito dolorido.
E não posso deixar de achar que foi até rápido também.

À noite, ainda fomos num restaurante, tentar espairecer - essa está sendo a meta de vida do Cleber, não me deixar cair. Senti uma tristeza lá, quase chorei mesmo, mas segurei. Foi coisa rápida a saída.
No domingo à tarde dei uma caída, sangrou um pouco mais, e fiquei um bom tempo deitada. Chorei mais um pouco.
À noite, entrei em parafuso, achando que eu era uma merda e que não tinha me despedido direito da Bolota, que eu tinha agido errado. O Cleber conversou comigo, disse que eu tinha feito tudo que podíamos, que eu tinha rezado por ela, e até me lembrou que eu esperei o tempo dela, pois não fui ao hospital induzir, que tudo aconteceu no tempo de Deus, no tempo da natureza. Chorei mais.

Ontem a rotina voltou ao normal. E nem chorei muito, só um pouquinho quando fui tentar escrever uma carta pra ela, mas não consegui terminar.
Hoje passei o dia escrevendo esse relato - tendo que parar pra secar as lágrimas, comer e espairecer um pouco com outras coisas. Acho que a palidez tá passando aos poucos.
Parece que tá tudo meio distante, meio vago, meio turvo.
E estamos indo assim, um passinho de cada vez, porque ainda não consigo olhar pro futuro.
Mas um dia eu hei de conseguir.

O relato que eu não queria fazer, nunca - o dia.

Post longo, que terá que ser dividido em duas partes (a segunda sai ainda hoje também), e que foi revisado entre lágrimas. Ou seja, é favor perdoar algum erro ou repetição.
Este é o relato de como eu descobri a perda do meu bebê.
Sinta-se à vontade para não ler, qualquer que seja o seu motivo. 

Quinta-feira, 08 de agosto de 2013.
Marido e eu saímos cedo, porque era dia de consulta pré-natal na Casa Angela. Desta vez, fomos atendidos pela Fran, uma EO que ainda não conhecíamos (pois seu plantão era à noite). Conversamos bastante, falei como me sentia - essas coisas todas de consulta - e chegou o momento de ouvir os batimentos cardíacos do bebê. Me deitei na cama/maca, levantei o vestido e esperei. Ela ainda disse "esse sonar é antigo, então faz um chiado". E realmente fazia, como um radinho fora da estação. Ela procurou, procurou, procurou... e não conseguia ouvir o coração do bebê. Saiu sala, pegou outro sonar - mais novo, que eles usam durante o trabalho de parto - e foi tentar de novo. Tentou muito, em vários pontos da minha barriga, e nada. Conseguiu pegar a minha frequência cardíaca, mas nada do bebê. Ela conversou com ele, apalpou a minha barriga, como se fosse uma massagem, e tentou de novo. Nada. Absolutamente nenhum sinal. Eu, que já estava com medo, comecei a me apavorar. Ela ainda disse que ele poderia estar escondido, sei lá, mas eu sabia que com 17 semanas era difícil se esconder. Ela me deu uma guia de ultrassom pra eu fazer caso me sentisse muito angustiada, pois ainda faltava quase um mês pro morfológico do 2º tri. Saímos do consultório e, na sala de espera, demos de cara com duas famílias, com seus mini bebês fofinhos. Meu coração ficou apertado, senti um peso no peito. Bebi água e fomos embora.
Chegando no metrô, eu falo pro Cleber (que estava o tempo todo tentando me acalmar): "eu queria muito ir fazer esse exame agora, não vou aguentar esperar até sábado" (sábado seria o dia que ele poderia ir comigo). Ao que ele disse "tá bom vai, vamos lá fazer o exame, eu vou com você". No caminho, eu disse pra ele: "a maternidade é mesmo um eterno cuspir pra cima e cair na testa; eu estava toda confiante, querendo fazer o mínimo de ultrassons, e agora tô aqui, indo fazer um toda ansiosa".

Parece que demorou três anos até chamarem meu nome. Minha mão já suava, fria. Quando finalmente fui chamada, o Cleber entrou comigo, mas não ficou do meu lado, pela posição do aparelho e de onde estava a médica. E aí aconteceu o que, na minha visão, foi o mais duro de tudo. A médica colocou a imagem na tela e eu logo falei: "você tá vendo alguma coisa?", e ela balançou a cabeça dizendo que não. Acho que posso afirmar que uma cratera se abriu no meu peito naquele instante. E eu perguntei aquilo porque, quando olhei a imagem, não foi o meu bebê que eu vi. Não era a minha Bolota ali, em preto e branco. Eu sabia que ela já tinha ido embora. A médica tirou o aparelho e colocou na minha barriga de novo, e eu realmente não conseguia identificar - literalmente - o que a imagem mostrava. Eu devo ter falado mais alguma coisa, mas era mais silêncio que tinha na sala. Eu ainda não chorava. Chamei pelo Cleber, precisava ouvir sua voz. Chegou um outro médico - devia ser especialista, não sei, e conversaram alguns minutos, e ele confirmou, em termos técnicos que não me lembro, o que tinha acontecido.
Acho que foi nesse momento que ela disse, com uma voz baixa e bem suave: "olha, o seu bebê parou de se desenvolver". Hoje eu agradeço pelo jeito que ela disse, foi super delicada mesmo. Me mostrou o que ela e o médico disseram, que a cabecinha estava bem maior do que as perninhas, tanto que chamava até atenção. Por isso eu não conseguia identificar nada. Não tinha movimentos, não tinha barulho, não tinha batimentos cardíacos. Nada. Ainda perguntei se eu havia feito alguma coisa errada, e ela me me disse que não, que muito provavelmente era uma falha genética mesmo, e que a natureza é sábia. Não sei mais o que falamos. Aí eu perguntei "e agora?", e ela disse pra eu ir no hospital. "Agora?", "é, acabar logo com isso, né?", foi o que ela me disse. Ainda me ajudou a levantar e aí eu desabei. Ainda sentada, chorei, muito. O Cleber veio me abraçar - o primeiro de muitos nesses dias. Deixaram que ficássemos ali uns minutos. Meu coração ardia de dor. Coloquei os óculos escuros mesmo a sala estando na penumbra e ainda consegui dizer que daria tudo certo.

Sentamos pra esperar o resultado, e eu chorava mais. Grudei no Cleber e só chorava. Depois eu soube que ele esteve à beira das lágrimas também, mas segurou firme, por mim. Preciso me lembrar de me casar com esse homem de novo. Ele dizia que me amava, que estava comigo, que não tinha sido minha culpa, que iria cuidar de mim sempre, que o tempo de Deus é o certo. Eu me lembro de agradecer todas essas palavras, balançar a cabeça que sim, eu acreditava nele, tentar afirmar que tinha que ser assim e falar que o nosso bebê tinha ido morar no céu.
O laudo chegou e eu não sabia o que fazer. O Cleber tentou ligar pro meu pai, desligado. Liguei pra minha mãe, chorando: "mãe, não tem mais bebê", e ela ficou totalmente abalada - devo ter explicado mais ou menos o que houve, e ela disse que ia dar um jeito de achar meu pai, mas não precisou, porque nesse instante o Cleber conseguiu falar com ele, e ele disse que estava indo nos buscar.
Lembrei que não tinha plano de saúde e que não queria me internar em qualquer hospital. Falei que eu não tinha nem médico, e me lembrei que tinha, sim, a Betina. Fui sendo invadida por uma certeza de que eu precisava fazer alguma coisa, agir. Mas ainda chorava. O Cleber ligou pra Betina e conseguiu um encaixe pra mesma tarde - ela disse que tinha que me ver antes de falar o que era pra ser feito. Mandei uma mensagem pra Isa, ela me ligou, disse que iria onde eu estivesse, que ficaria comigo caso eu precisasse passar por um trabalho de parto no hospital, ou qualquer coisa assim. Minha mãe ligou de novo, eu contei que ia na Betina e ela disse que ia dar um jeito de chegar lá também. O Cleber avisou no trabalho que não iria mais e, quando disse o motivo, o chefe deu o dia seguinte de folga também. A gente ainda estava no laboratório, era por volta de 13: 30 da tarde. Eu olhava a rua, enxergava todo mundo em câmera lenta. Abraçava o Cleber, chorava mais. Eu não sabia o que ia acontecer. Eu não sentia fome. Eu tinha medo.

Aos poucos o choro cessou e fui ficando anestesiada. Eu só esperava o próximo passo - que naquele momento era esperar a chegada do meu pai. Ele chegou e decidimos que iríamos buscar minha mãe no trabalho, e depois ir direto pro consultório da médica. Quando finalmente chegamos, meu pai ficou no carro e subimos nós três pra consulta. A Betina viu o ultrassom, mas aí eu disparei a contar o dia e ela só leu a parte que o desenvolvimento do feto estava muito abaixo do normal, não leu tudo porque parou pra me ouvir. Ela achou que ainda tinha chances. Mas aí mostramos as últimas frases e ela entendeu. Pediu muitas desculpas pelo mal entendido. E disse que eu podia esperar, que meu corpo ia agir. Eu ainda estava na vibe do "tenho que agir agora" e pensei mesmo que teria que ir direto pro hospital, meio que me preparei pra isso. Minha mãe fez mil perguntas. A Betina disse que eu poderia escolher, que se eu esperasse meu corpo agiria, sim, mas que se fosse emocionalmente muito pesado pra mim, eu podia ir pro hospital induzir, e ainda disse que eu entraria em trabalho de parto, que ia doer bastante e que ia ficar sangrando mais que uma menstruação. Minha mãe perguntou o que ela achava melhor. E eu disse: "ela acha melhor esperar. Né?" "É, na minha opinião é melhor esperar". Foi aí que me lembrei. Eu prezo pelo natural. Pelo fisiológico, pelo tempo da natureza. E foi por isso que eu havia escolhido aquela médica. Eu perguntei do chá de canela, ela confirmou que era bom, e que o de gengibre também. Disse que a decisão era minha, mas que eu podia pensar mais um pouco, em casa. Que se acontecesse em casa, talvez eu nem precisasse de hospital depois, mas que se sangrasse demais, eu tinha que ir. O meu medo era ter que olhar pro que ia sair de dentro de mim, essa é a verdade. Eu não fazia a mínima ideia de como seria. Eu não estava preparada.

Chegamos em casa, e aqui eu não sei mais o que escrever. Não me lembro. Lembro que eu não chorava, que sentia uma tristeza imensa. Não queria conversar sobre isso. Sentia umas cólicas leves. Devo ter comido alguma coisa, não faço ideia de quê. Só me lembro que eu estava sentada no sofá, o Cleber do meu lado, a tevê ligada.

(continua...)

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O meu agradecimento

Gente, como eu faço para agradecer o carinho imenso que recebi de vocês, sem ser repetitiva?
Ainda não sei a resposta, então vai do jeito tradicional mesmo: MUITO OBRIGADO pela força. Vocês são incríveis, fui muito feliz quando resolvi criar esse blog, porque o vínculo fica verdadeiro mesmo, e nesses momentos difíceis tudo que  agente precisa é de apoio.

Ainda está difícil, mas já não está impossível.
O nome desse blog, mais do que nunca, faz todo sentido. Porque o "só até amanhã de manhã " é uma variação de "um dia de cada vez". É assim que estamos, vivendo um dia de cada vez. Um passinho na frente do outro, sem pressa, sem projetar nada no futuro, porque ainda é muito cedo. Porque ainda existe um medo do futuro, mas não estou focando nisso agora.
Hoje voltamos à rotina normal. A notícia chegou na quinta, o fato se consumou na madrugada de sexta (sim, no dia do meu aniversário) e nesses dois dias (mais o final de semana) não fiquei sozinha nem um minuto sequer. Hoje todos voltaram a trabalhar, inclusive o Cleber, então estou sozinha em casa.
E até que estou reagindo bem. Ainda não chorei (hoje, quero dizer) e estou fazendo repouso total.
Aliás, da parte fisiológica, está tudo caminhando também. Estou sangrando ainda, obviamente, mas dentro do esperado. Não fiz curetagem, nem fui ao hospital.

Estou sentindo vontade de escrever como tudo se deu, como meu corpo trabalhou. Mas não sei se é legal tantos detalhes, pelas recém-gestantes que me leem, mas realmente sinto que preciso disso. Então, se eu escrever, coloco um aviso no começo pra quem não se sentir à vontade de ler, não se preocupem.
Estou me apegando muito na minha fé. Rezei muito pelo bebê (não, não é mais bolota, não vou mais usar o nome, nem consigo falar mais), e também para entender o porquê disso tudo.
Tenho muita coisa pra desabafar, pra elaborar, mas vou escrevendo aos poucos.

No sábado, a minha doula veio me ver, me doular. Foi muito importante pra mim. Depois ela escreveu uma mensagem na página dela. E eu compartilhei na minha time line com mais algumas palavras. Como não quero perder as palavras dela, vou copiar aqui, pra ficar guardadinho.

"Hoje doulei... doulei uma perda. 
Hoje acalantei uma mãe e QUE MÃE. Apesar de não ter concretizado nas mãos sua maternidade, é MÃE e dessa maternagem, mesmo que breve, nasce uma mulher ao quadrado, uma fortaleza que me encanta, que me mostra que não viemos aqui só a passeio, mostra que nesse tabuleiro vc pode andar uma casa ou pode andar várias e nesse caso, a perdi de vista! meu eterno amor!"


e aqui em baixo o que eu escrevi pra ela e pra todo mundo que me mandou força, que fica como agradecimento à vocês também.

Desde quinta-feira, tenho repetido muito a frase "eu não sei de onde vem a força, só sei que ela tá chegando em mim". Mas a verdade é que eu estava anestesiada demais para me dar conta. Além da força que veio de dentro de mim mesma, da força dos meus anjos me protegendo, também recebi muita força de todas as pessoas queridas da minha vida. Cada palavra de carinho que recebi aqui, nos meus dois blogs e nos meus e-mails me pegavam no colo. Cada abraço e cada palavra do meu marido, que está sendo espetacular, e cada gesto de amor da família e dos amigos, também não me deixaram cair. À todos e a cada um de vocês que estão me amparando, muito obrigado!

Pra quem não sabe, DOULA é a mulher que dá suporte emocional e psicológico às mães (e pais) durante a gestação e principalmente na hora do parto. Vários estudos comprovam os benefícios de sua presença, mas eu não preciso de nenhum pra saber da sua importância. Eu busquei a minha com menos de 8 semanas de gestação (o que é considerado bem cedo), e não me arrependo nem um minuto sequer disso. Ela foi fundamental no meu empoderamento nesse curto, porém intenso, caminho que percorri até aqui. Ela esteve comigo em cada momento que precisei. E ontem ainda veio aqui em casa, almoçar e passar um tempo comigo. Ela veio me doular. É um apoio que não tem preço. (E esse link que compartilhei são as palavras dela à respeito de ontem).

Isadora Canto, aprendi muito com você. As coisas que conversávamos nos nossos encontros foi fundamental para que eu não fraquejasse, mesmo quando achei que já estivesse em pedaços. Obrigado por tudo, por cada sorriso, por cada esclarecimento, por cada abraço e por essas palavras lindas sobre mim. Muito obrigado! ♥



imagem que a Isa Canto postou na mensagem.

Obrigado, mais uma vez, por todo carinho.
Sigamos um dia de cada vez, sempre. E que eu saiba ter discernimento para lidar com tudo isso.
Amém.

domingo, 11 de agosto de 2013

"- Tudo passa, tudo passará...


E nossa história não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz.
Teremos coisas bonitas pra contar.

E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás
Apenas começamos.
O mundo começa agora
Apenas começamos."
Metal Contra as Nuvens, Legião Urbana

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Graças a minha base, não desabei

Tem gente que não entende o porquê de eu e o Cleber morarmos na mesma casa que os meus pais. Como se, casando, fossemos obrigados a nos afastar deles. Aqui não funciona assim. Somos uma família sempre unida, sempre fomos. Até o meu irmão, que mora há mais de 2 mil quilômetros de distância, se faz presente sempre. Temos a nossa independência e a nossa privacidade como casal, sim, à despeito de qualquer coisa que possam pensar.

Me lembro da época em que estávamos planejando o casamento. Para ir contratar o fotógrafo, por exemplo, fomos todos. Nós quatro para a reunião, conhecer o profissional que viria a eternizar um dos dias mais importantes da minha vida. Depois de assinar o contrato, ainda fomos à sorveteria que tinha em frente, comemorar mais uma conquista, rumo ao sonho maior. Foi assim em vários momentos. E quando eu "descobri" que não teria verba para contratar a decoradora dos meus sonhos - e nem nenhuma outra - todos se encarregaram de juntar as fotos que eu tinha de referência, fazer mil viagens à 25 de março, ir no Ceasa no dia anterior da cerimônia, e arrumar todo o salão, desde os arranjos de flores, até os docinhos na mesa - e ainda lembraram da lembrancinha dos padrinhos, que eu tinha me esquecido. Tudo isso enquanto eu curtia o meu dia de noiva, com hidro, massagem e tudo que eu tinha direito. Não me preocupei com absolutamente nada neste dia.

Hoje, 08 de agosto de 2013, tive o maior "baque" da minha vida até hoje. Sem muitas delongas, descobrimos que a vida que viria preencher nossas vidas, não vem mais. Não aquela vida. Não agora. Acabou.
O Cleber é um companheiro maravilhoso - sou muitíssimo abençoada por tê-lo em minha vida. Desde o comecinho, ele esteve presente em todas as consultas e exames. E quando eu precisava fazer jejum para algum exame, ele fazia junto, algumas vezes sem que eu nem notasse. Hoje não foi diferente. Ele estava comigo no consultório médico. Ficamos apreensivos com algo que havia se alterado e, mesmo tendo que ir trabalhar, desviou sua rota quando pedi, e me acompanhou num exame de emergência. Ele estava comigo naquela salinha à meia luz, quando vimos que, agora, eu só tenho um coração batendo dentro de mim, de novo. Eu chorei. O chão parece que se abriu sob meus pés. Ele me abraçou forte - porque também precisava de um abraço. Foi muito difícil. Foi absurdamente difícil. Pude chorar mais uns minutos, e depois começamos a tomar algumas providências. Enquanto eu falava com a minha mãe, ele falava com o meu pai que, como estava saindo pro almoço, pegou o carro e foi diretamente onde estávamos, nos buscar. Enquanto esperávamos sua chegada, eu observava as pessoas andando na rua, e era como se tudo tivesse em câmera lenta. Abracei meu marido mais muitas vezes. Ouvi suas palavras de carinho e de amor. Nos unimos ainda mais. Quando meu pai chegou, ao invés de irmos para o consultório da médica - que já tinha sido avisada - passamos no trabalho da minha mãe, que já nos esperava. Todos juntos. Sempre.

A minha doula e amiga, Isadora Canto, também se fez presente em suas palavras de consolo pelo telefone e internet. Está sendo fundamental tê-la, também, comigo agora.

E hoje à tarde, no carro, vendo nós quatro juntos, inventando algum motivo pra sorrir, eu percebi. Nada é mais valioso que isso. Nada é mais valioso do que ter as pessoas mais importantes da sua vida com você, nos momentos exatos em que mais precisa. Seja realizando seu sonho de ter muitas flores amarelas em sua festa de casamento. Seja largando seus dias de trabalho "apenas" para estar ao meu lado num momento de perda. Multiplicam a minha alegria e dividem a minha tristeza.

Está sendo muito difícil. Imensamente, eu diria. Mais do que posso mensurar em palavras. Mas hoje, se estou passando por isso mais firme (leia-se: chorando menos) do que nunca imaginei que ficaria, é também por eles. Minha família. A razão de eu ser quem sou.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

BC: "O que ninguém me contou sobre a gravidez!!"

Tô adorando esses dias de blogagem coletiva, meninas!! Muito bom mesmo! :)

Então vamos lá. O tema de hoje - o que ninguém me contou sobre a gravidez - me pegou desprevenida. Eu leio tanto, há tanto tempo, e ainda acompanhei de perto a gestação da minha prima há uns anos atrás, sem falar no que minha mãe sempre dizia, que parece que a gente já sabe um monte de coisas que "pode vir" a acontecer.
Eu sabia que eu poderia ter um monte de enjoos - e não tive!
Eu sabia que eu podia sentir muito sono - e ele veio misturado ao cansaço.
Eu sabia que poderia me tornar mais sensível (ainda) - e me tornei mesmo.
Eu sabia das mudanças corporais - e elas estão chegando cada uma em seu tempo.
Olfato e paladar alterados, fome monstro, todum leque de coisas possíveis e imagináveis.

 Mas duas coisas eu não sabia. Ou melhor, não esperava que acontecesse comigo.

Primeiro - e que eu até já citei aqui algumas vezes: a minha calma com a gestação.
Eu achava que seria aquelas grávidas que querem fazer um ultrassom por mês, checar tudo, contar todos os minutos, sabem como? Pois me enganei. Tô tipo grávida zen. Mesmo! O que é uma baita de uma novidade, porque eu sou um ser ansioso de nascença.
Mas a parte em negrito é para frisar que é só com a gestação mesmo.
Tenho alterado momentos de total calma - quando o assunto sou eu e Bolota (desde seu desenvolvimento aqui dentro, até os preparativos práticos da sua chegada) - até momentos em que arquiteto planos mirabolantes de como dominar o mundo exterminar todas as pessoas que perdem seu glorioso tempo me dizendo o que devo, ou não, fazer ou saber. A minha paciência tá chegando a zero - e depois eu venho contar mais disso.

A outra coisa, principal de to-das, campeã de audiência nessas quase 18 semanas é... a minha LERDEZA!
Isso eu posso dizer que ninguém me contou. Até já tinha lido que as grávidas ficam mais avoadas, mais lerdinhas mesmo. Mas gente! Nin-guém falou do tanto que era isso. Tipo... muito mesmo. E como eu sou uma pessoa que gosta de ilustrar os causos, então vai um fresquinho pra vocês, aconteceu ontem.

Minha mãe está viajando, então eu me sinto a própria dona de casa em sua ausência (quando ela está aqui eu também faço as coisas, mas é mais dividido). O plano do dia era lavar pelo menos duas máquinas de roupa, pra não acumular mais do que já estava. Já começa que esqueci essa parte - que eu tinha verbalizado pro meu pai na hora do almoço!!! No finzinho da tarde que eu lembrei da bendita roupa. Ok, ainda dá tempo de lavar uma, vamos lá. Separei tudo bonitinho, coloquei na máquina, botei sabão e amaciante em seus respectivos recipientes e, voilà!, pelo menos eu tinha sido só um pouquinho lerda, não perdi o dia. Eu tava sisintindo A mais esperta da cidade. Pois bem.
O Cleber chegou do trabalho e fomos fazer a janta. Tudo muito lindo, eu fazia uma coisa, ele fazia outra, até que eu me lembro:
- A máquina já parou de bater, né? Não posso esquecer de estender a roupa, pra colocar mais amanhã.
- Não ouvi a máquina, não, amor.
- Ah, então é porque já parou mesmo.
Depois de jantar, lá vou eu - super produtiva - estender a roupa. Abro a máquina e vejo um pouquinho de sabão numa calça social.
- Ah, que saco! Essa merda de recipiente não tá funcionando! Por isso que minha mãe coloca o sabão direto na roupa! Não acredito que vou ter que lavar de novo.
Aí eu tenho a brihante ideia de pegar na calça e nas outras roupas.
E descubro que estão secas.
Porque eu esqueci.
De ligar a máquina.

Fim!




(quem é mesmo que vai indicar o próximo tema?
eu disse que tava lerda...)

terça-feira, 6 de agosto de 2013

O Renascimento do Parto - O filme



A Folha de São Paulo organizou uma pré-estreia do filme O Renascimento do Parto, juntamente com o Espaço Itau de Cinema - Frei Caneca, ontem, dia 05 de agosto.
Eu havia visto esta notícia na internet, mas nem planejava ir. Como a estreia para o público está marcada para o dia 09, que é o dia do meu aniversário, e como eu não contribuí com o valor que dava direito à ingressos da pré-estreia para benfeitores e convidados (que é hoje, dia 06), já havia decidido que era nesse dia que eu iria, como um presente. Mas aí a minha prima viu a notícia também e me chamou para ir com ela. Claro que topei, na hora! Adoro uma mudança de planos. Ela nem sabia ao certo como seria, não conseguiu ver o trailer, mas eu contei pra ela como era, falei que eu tinha contribuído para ajudar o filme a chegar nas telas de cinema, e então nos animamos ainda  mais. Combinei também com o Cleber - que trabalha lá perto - e fomos.
O evento - com um debate logo após a exibição do filme, com a presença do diretor do filme Eduardo Chauvet, da produtora e roteirista Erica de Paula, da pediatra e neonatologista Ana Paula Caldas e da ginecologista e obstetra Carla Andreucci Polido - foi gratuito. Os ingressos seriam distribuídos a partir das 19:00, por ordem de chegada. Sabendo disso, e sabendo que provavelmente iria estar bem cheio, combinamos de chegar cedo, para garantir um lugar na fila.
Pois bem, chegamos, minha prima e eu, às 18:00. Ainda não tinha ninguém esperando, então descemos para comer alguma coisa.Quando voltamos, meia hora depois, já tinha uma ou duas pessoas, mas de forma meio aleatória ali pelo lugar. Perguntamos para atendente onde seria a fila e a iniciamos. Sim, fomos exatamente as primeiríssimas da fila! Ingresso garantido nós teríamos. Algumas pessoas foram se juntando e, alguns poucos minutos depois, já tinha muita gente. Parece que combinaram de chegar todos juntos. O Cleber chegou um pouco depois e se juntou a nós. A fila foi crescendo, o tempo foi passando e já era possível sentir um misto de animação e ansiedade no ar - ou seria em mim?
Com ingressos em mãos, esperamos mais uma horinha e finalmente havia chegado a hora de assistir, na íntegra, aquele filme que eu havia esperado tanto para ver.

Não vou fazer spoiler (pelo menos vou tentar). Até porque eu sei que muitos aqui verão o filme na pré-estreia de suas cidades, ou na estreia, ou em qualquer outro dia. O que eu preciso dizer é: o filme é sensacional! É forte, é intenso, é lindo, é emocionante. Muitos sentimentos juntos. Intensidade. Sinestesia.
Comprei um pacote grande de pipoca e suco de maracujá, e foi ótimo, rs.
Para as pessoas mais sensíveis com cenas de cirurgia e intervenções, como eu, é imprescindível que não se vá sozinha. Eu fui com duas pessoas mesmo porque sabia que seria complicado nessas partes. E eu vi muito pouco disso, porque fechava o olho e comia pipoca quando a coisa ficava mais difícil pra mim - tanto que algumas legendas eu nem li. Eu via algumas cenas e, instintivamente, colocava a mão na barriga, querendo proteger o meu bebê de toda e qualquer coisa que possa nos fazer mal, que nos afaste do processo natural de nascer.
O mais impressionante foi que eu não chorei.
Sempre chorava, pelo menos um pouquinho, quando via o vídeo promocional. Fui preparada para sair com os olhos vermelhos e o rosto inchado. Mas não aconteceu. O que não significa que eu não tenha me emocionado, muito pelo contrário. Fiquei estarrecida em muitos momentos. Chocada com algumas cenas, muito comovida com várias falas das pessoas que deram seus depoimentos. Sem contar os profissionais brilhantes que falam muitas verdades também. Mas as lágrimas não chegaram a cair. Foi tão intenso pra mim que, quando acabou, eu mal consegui me mexer na cadeira, minha cabeça pulsava de vontade de ver logo uma mudança, e ao longo do filme eu fui sentindo um calor enorme. Ainda bem que teve o debate depois, assim não precisei levantar.

Para mim, que estou envolvida até o pescoço com assuntos de humanização e respeito ao parto e nascimento, não foi exatamente uma surpresa. Claro que a gente já sabe muita coisa que foi dita ali. Mas ver um panorama bem amplo da situação, todos os fatos juntos, bem grande numa tela inteira de cinema, é muito forte. É inevitável o pensamento de que é preciso mudar, urgentemente, o cenário obstétrico brasileiro atual. Nunca vou deixar de me chocar com alguns casos. Não dá para lutar, por qualquer causa que seja, com indiferença. É por achar que muita coisa é normal e aceitável que chegamos onde chegamos. E partindo do pressuposto de que todas as pessoas nascem, este é, sim, um assunto de toda a sociedade.
Não é um problema com uma causa só. Como bem disse a parteira Ana Cristina Duarte, não existe um lobo mau da história, o problema é multifatorial. Ou seja, é preciso trabalhar em várias frentes para conseguirmos um bom resultado a longo prazo - porque nada vai mudar da noite pro dia, não sejamos ingênuos.

Sobre o debate, foi rápido, cerca de 40 minutos, mediado pela repórter especial da Folha, Claudia Collucci. Ela fez perguntas para a mesa, e depois abriu para a público também. Na minha opinião, foi bem rico, apesar do pouco tempo. A obstetra Carla Andreucci é muito esclarecedora (e adora falar, rs). A Ana Paula Cladas também; me senti privilegiada por estar ali, participando daquilo tudo.
Além delas, estavam na sala, também, o doutor Jorge Kuhn, a Ana Cris Duarte e mais um monte de gente linda do movimento da humanização. Agora imaginem, quando eu vi o doutor Jorge na fila, foi quase como se eu tivesse visto um artista, fiquei muito feliz, rs. Porque eu sei da importância de cada um deles dentro do movimento, respeito muito tudo que eles dizem, confio muito, admiro demais.
Algumas pessoas falaram, e foi bem legal também ver as dúvidas serem respondidas ali na hora. Um médico obstetra (que faz parto há 40 anos, como ele disse) também falou, falando o lado dele, mas também que é um caso complexo, etc. A Ana Cris falou lindamente depois, a respeito do que ele falou, e nossa, todas as pessoas deveriam ter a oportunidade de ouvir essa mulher, ela é muito clara e muito direta. Foi aplaudida no final. E aí acabou o tempo.
Infelizmente estávamos de ônibus, e já estava tarde, então tivemos que ir embora rápido, nem deu tempo de dar um abraço nela e cumprimentar as outras pessoas.

Foi uma experiência muito enriquecedora. Uma aula mesmo.
E ainda pretendo ver o filme mais uma vez, com a minha mãe.

E se eu puder dizer apenas uma coisa às gestantes, eu diria: informe-se! Você tem direitos e eles devem ser respeitados em qualquer lugar, seja no SUS, ou na rede particular. Leia, frequente grupos, cerque-se de pessoas com informação de qualidade. Empodere-se. O corpo é seu. O parto é seu.

E não deixem de ver o filme - que foi selecionado para o 6º Los Angeles Brazilian Film Festival também já foi confirmado a ser exibido DocBrazil Festival - China 2013. Ele vai abrir muitas portas, acredite.

sábado, 3 de agosto de 2013

17 semanas e uma mudança no visual

Entramos hoje na 17º semana de gestação.
Na semana passada fez um frio tenebroso aqui em São Paulo, e eu fiquei meio jururu. E isso é um pouco curioso, porque apesar de gostar de sol e dias azuis desde sempre, me sentia muito bem nos dias cinzas, nunca foi um problema. Ano passado, inclusive, eu me sentia ainda mais inspirada para escrever quando chovia. Adorava mesmo! Gostava de passear em dias de garoa, de ir ver a vida acontecendo, apesar de qualquer coisa. Não sei se é da gravidez, mas esse ano não gostei do frio, não. Bom, Bolota vai nascer no auge do verão, né, vai ver é isso. E dizem que grávidas sentem mais calor... esperei isso semana passada, e não rolou. Minha mente deu uma travada básica, não quis sair de casa, fiquei bem introspectiva mesmo.
Mas aí, para a alegria desta que vos escreve, nesta semana que passou o sol voltou a brilhar e eu voltei a ser gente  ao normal.

Meu plano era voltar pro yoga agora, já que o frio cansaço e a fase casulo passaram, mas não achei mais vaga no Sesc, que é onde eu pago bem mais barato. Lá na Casa Angela tem uma turma todos os sábados, vou ver se me encaixo lá. Verei isto na próxima quinta, na minha consulta mensal. Mas se não rolar por qualquer motivo, me viro aqui em casa mesmo - e aja disciplina (essa coisa de exercício em casa nunca funcionou comigo).

Na quarta-feira, radicalizei e cortei meu cabelo bem curtinho.
No fim do ano passado eu também cortei curto, mas acho que dessa vez foi um pouquinho mais. E essa é a prova máxima de que eu confio muito no meu cabeleireiro: ele me pergunta "quanto a gente vai cortar, Má?" e eu respondo "ah, Thi, pode cortar, o tanto que for necessário", haha. Estou com ele desde 2007, e somente ele mexe no meu cabelo, ninguém mais. E uma manhã num salão onde os profissionais são super animados faz um bem danado. Saí de lá renovada e ainda passei a tarde com a minha prima e o meu sobrinho, rindo e conversando um pouco.

Na quinta foi dia de desvirtualizar.
Conheci pessoalmente a Dani e foi ótimo o nosso almoço.
E aí a gente percebe que esse carinho todo que ganhamos quando temos um blog é real mesmo. Não que um dia eu tenha pensado que não fosse, não é isso (aliás é bem o oposto, sinto um carinho enorme por tudo isso aqui, e é quase palpável), mas sentir isso num abraço, num papo ao vivo é muito gostoso. Adorei, Dani, vamos repetir muito, hein! :)

Dani, eu e meu cabelo novo.


E teve uns dias em que eu estava achando a minha barriga pequena. Ou melhor, não pequena exatamente, mas mole. Sabe, eu achava que 16 semanas já era semana o suficiente para dar um ar mais gravídico à minha pança. Me enganei, tchon, tchon, tchooonn...
Em pé é uma lindeza - e quando estou passando creme em frente ao espelho, por exemplo, realmente percebo uma diferença na parte de baixo, maior, mais firme e tal. Mas quando eu me sento, ainda dobra um pouquinho, entendem como é? Fico me achando mais gorda que grávida. E quando me deito, some quase tudo, rs. Daí, desde ontem estou percebendo que está ficando ainda mais durinha e arredondada. Pensem numa pessoa feliz? Sou eu olhando pra minha barriga, haha.

Aliás, por falar nisso, e por falar no meu encontro com a Dani, justamente no dia do nosso almoço (01 de agosto, para eu não me esquecer), tive certeza mesmo que senti Bolota mexendo aqui dentro. Ai que delícia isso, minha gente! Eu já tinha tido essa impressão antes, mas agora acho que é pra valer mesmo! A parte não-romântica da história é que foi dentro do ônibus o tal momento, mas isso é só um detalhe, não é mesmo? E no dia seguinte, ou seja, ontem, senti de novo, umas duas vezes. É algo realmente bem levinho, quase borboletinhas voando, ou como se alguém passasse os dedos na minha barriga de leve, mas do lado de dentro.

Vejam só como estamos:

16 semanas e 5 dias de Bolota


Os próximos dias prometem! Tem consulta de pré-natal, tem estreia do filme 'O Renascimento do Parto', tem o aniversário da minha pessoa (no mesmo dia da estreia do filme, own!) e ainda tem dia dos pais! Ou seja, voltarei algumas vezes com mais trololó. 
Beijo em todo mundo. Até lá!